EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA

Mão Sinais

Conheça e inspire-se com a história de Éden Veloso, empresário de sucesso de Curitiba, no Estado do Paraná.

Caso de Sucesso Sebrae

O empresário Éden Veloso, 37 anos, não precisou ir muito longe para ter uma boa ideia de negócio. A sua própria experiência de vida foi o suficiente para motivá-lo a ser um empreendedor. Cliente do Sebrae/PR, Éden é surdo profundo de nascença, mas em nenhum momento a falta da audição foi um fator limitador para ele investir na sua própria empresa. Pelo contrário, de forma tímida, mas significativa, com o seu trabalho, ele também vem ajudando a diminuir o preconceito, a promover a acessibilidade ao mercado de trabalho e a aumentar a participação dos surdos como indivíduos produtivos na sociedade.

Em 2009, ele fundou a Editora Mão Sinais com o sócio, Valdeci Maia, também surdo. A principal publicação, “Aprenda Libras com eficiência e rapidez”, volumes 1 e 2, acompanha um dvd com diálogos em Libras (Língua Brasileira de Sinais), e já vendeu mais de 30 mil exemplares em todo o Brasil. O livro reúne o aprendizado de 1,2 mil sinais da Libras, que engloba no total mais 7 mil códigos de comunicação. Ainda no segundo semestre de 2013, a editora vai lançar os volumes 3 e 4 com outros 1,4 mil sinais.

“O principal objetivo é colaborar com a inclusão social e o contato com a cultura surda. Quem aprende Libras amplia sua rede de comunicação, enriquece sua atividade profissional e favorece a inclusão do surdo”, explica Éden Veloso. O livro, reforça ele, é fruto de muita pesquisa e foi pensado para os ouvintes aprenderem Libras mais rápido. “Reunimos materiais de diferentes experiências de ensino com a língua”, afirma Éden Veloso, que é formado no curso de Licenciatura em Letras/Libras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A Escola Mão Sinais começou a funcionar em 2011, no bairro do Portão, em Curitiba. A sede conta com uma estrutura de sete salas, onde oito professores, todos surdos, ministram aulas de Libras. Cerca de 90% dos funcionários da escola são surdos, e apenas três colaboradores são ouvintes. De 2011 até agora, a escola contabiliza um pouco mais de 250 alunos, sendo a maioria ouvintes.

“Foi difícil abrir a escola, precisei ter muita coragem, porque o nosso público é surdo ou pessoas que têm envolvimento com surdos, como familiares, amigos, colegas de trabalho e profissionais da área de saúde. É como abrir uma escola especializada em ensino de mandarim (idioma oficial da China), quantas pessoas irão se interessar pelo curso?”, compara Éden Veloso, informando que existem cerca de 30 mil surdos em Curitiba, 500 mil no Paraná. Já no Brasil, esse número é de 9 milhões.

“Muitos familiares de surdos nos procuram, mas a maioria acaba abandonando o curso porque é difícil mesmo aprender Libras, leva mais ou menos uns três anos. Mas se comparar com o Português é uma língua menos complexa, só que é necessário ter boa memória para aprender milhares de sinais”, avalia.

“A estrutura do Português é bem diferente da Libras, por exemplo, em português você pergunta: quantos anos você tem?. Já em Libras você pergunta: idade você?. Por isso a dificuldade do surdo em compreender até mesmo o Português escrito. Para o surdo, a primeira língua é a Libras e a segunda é o Português”, esclarece ele.

 Memória

Telêmaco Borba, cidade natal de Éden, é o lugar de onde o empresário tem as primeiras lembranças de preconceito e dificuldades que enfrentou quase a vida inteira pela surdez. “Lembro que a professora fazia a chamada e quando ela dizia o meu nome eu só levantava a mão, não respondia. No entanto, ela insistia para que eu dissesse ‘presente’. Aí eu tentava falar, só que eu balbuciava a palavra e tinha uma voz estranha. Todos os alunos debochavam de mim. A professora sempre me fazia passar por isso”, recorda

“As crianças não me deixavam jogar bola ou participar das brincadeiras, me chamavam de retardado”, completa. Um pouco mais velho, Éden foi morar em Curitiba com a família e continuou os estudos até o ensino superior. Ele cursou quatro anos de Ciências da Computação, mas teve que largar devido à grande dificuldade para compreender o que os professores comunicavam.

“Eu pedia à professora para que ela falasse de frente para os alunos e não olhando para o quadro ou mesmo caminhando na sala, para que eu pudesse fazer a leitura labial. Mas ela dizia que não conseguia ficar parada”, conta ele. “Foi aí que minha mãe teve a ideia de comprar um gravador. Eu gravava as aulas e, à noite, ela ouvia e contava para mim. Só que foi ficando muito desgastante, alguns professores se incomodavam com a situação, então eu tive que abandonar o curso”, lembra.

Antes de abrir a Mão Sinais, Éden trabalhou em duas fábricas em Curitiba. “No meu primeiro emprego, eu era o único funcionário surdo da fábrica. Lembro que eles faziam reuniões, mas eu nunca conseguia entender o teor do assunto porque eles falavam muito rápido. Teve um dia que eu olhei em volta e não tinha ninguém trabalhando, eu estava sozinho. Procurei e achei todo mundo na sala de reunião. Perguntei por que não tinham me chamado, eles disseram que eu não entendia, então não precisava estar lá. Senti-me muito ofendido e acabei pedindo as contas”, desabafa.

Foi quando Éden resolveu trabalhar como autônomo e começou a dar aulas de Libras, primeiro na igreja que frequentava, depois em escolas especiais, até que começou a ser chamado para ensinar dentro de fábricas de Curitiba. “Fui dar aulas para funcionários de uma empresa que tinha contratado 30 surdos para cumprir a lei de cotas - Lei Federal nº 8.213, de julho de 1991. Os surdos não queriam continuar na fábrica, porque estavam excluídos de tudo lá dentro.”

“O ambiente de trabalho precisa ser agradável também para o surdo, ele precisa receber explicações e se sentir participante em todo o processo como qualquer outro funcionário. A empresa tem o dever de criar pontes de comunicação entre os empregados surdos e os ouvintes”, defende.

Inclusão social 

A Escola Mão Sinais ainda presta serviços de intérpretes e cursos de capacitação em Libras para colaboradores de empresas em Curitiba. É com esse trabalho, aliás, que a empresa consegue equilibrar as finanças, já que a escola sozinha não se mantém. A Volvo, Bosch, Grupo Boticário, Maxipas, New Holland e Risotolândia são algumas das organizações que já solicitaram os serviços da Mão Sinais.

O seguro de saúde Maxipas, por exemplo, possui 15 funcionários que dominam a Libras para atender de forma adequada o cliente surdo. Já o Grupo Boticário é a empresa paranaense que mais avançou no trabalho de inclusão social dos funcionários surdos, na opinião de Éden Veloso.

Todos os treinamentos corporativos da organização são acompanhados de intérpretes, caso haja a participação de surdos. Além disso, o Grupo solicita a Mãos Sinais a adequação de provas e questionários para a Libras, que confecciona vídeos explicando as questões, passo a passo.

“A situação do surdo dentro das empresas precisa ainda melhorar muito, todos devem se conscientizar que o surdo tem capacidade intelectual e potencial como qualquer ouvinte. Por isso, a necessidade de estabelecer a comunicação para entender o que lhe é solicitado e poder crescer também na empresa, sem sofrer preconceitos. Não adianta contratar um surdo sem se preparar para atendê-lo. Hoje, um surdo com graduação não consegue ocupar um posto de trabalho além das linhas de produção. Precisamos de mais oportunidades.”

Para o futuro, a Mãos Sinais tem vários projetos. Um deles é a criação de uma Organização Não-Governamental (ONG) para dar suporte à escola, que tem planos de realizar novos trabalhos de assistência para surdos. No mês de outubro, será colocado no ar o novo site da Mão Sinais: haverá uma loja virtual para venda de livros da editora; um dicionário em Libras disponível para consultas; além de cursos de Libras a distância. (Texto da jornalista Flora Guedes para a Revista Soluções, do Sebrae/PR)

Empresa 

Mão Sinais
Rua Lourival Portella Natel, 255
Bairro Portão
Curitiba – Paraná
Telefone: (41) 3205-6675
Site: www.maosinais.com.br

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O Sebrae/PR orienta

Atendi Éden Veloso que, recentemente, procurou a entidade para tirar algumas dúvidas sobre gestão empresarial. O empresário falou dos planos que pretende colocar em prática nos próximos meses.

O empreendedorismo, de fato, não tem limites. E Éden Veloso, mais que um cliente, é um exemplo de superação, de pessoa que nasceu com o empreendedorismo nas veias, um exemplo a ser seguido. A sua timidez é misturada com determinação e é isso que faz seus empreendimentos seguirem adiante.

O empresário detém um perfil empreendedor bastante forte, porque não se intimida com as adversidades. Pelo contrário, as dificuldades o motivam a sempre fazer mais. É um caso que merece reflexão. Principalmente quando nos deparamos, frequentemente, com empresários muitas vezes receosos, prestes a desistir diante dos primeiros obstáculos.

O empreendedorismo é um ofício árduo, mas quase sempre recompensador, porque torna as pessoas melhores. No caso de Éden Veloso isso é nítido. É um empresário que mostra esta vontade de empreender todos os dias, quando sai para trabalhar e ajudar outras pessoas que vivem o seu mesmo problema.

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